terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Zona de Conforto




Henrique é um bom homem. Têm seus 77 anos. É feliz. Primeiro; sete é seu número da sorte e em dobro só pode significar sorte em dobro.  Segundo; pode ficar todos os dias assistindo televisão sem preocupar-se com mais nada. Não foi fácil para Henrique conquistar isso, na verdade foram anos de árduo trabalho.

Tudo começou na sua infância, quando jogava bola e percebeu que era muito difícil ser o melhor em quadra, e que era muito mais fácil ser mais um em quadra. Tendo essa realização após uma bolada na cabeça, decidiu que iria levar sua vida sendo mais um em quadra.

Para isso ele deveria primeiro; precisou cessar qualquer iniciativa crescente em seu peito. Qualquer chama de vontade era logo cessada pela vontade de ficar sentado em uma cadeira.

Segundo; toda e qualquer amizade que o fizesse ter que esforçasse ou incentivasse a realizar coisas além sua rotina tinham que ser minadas, e rapidamente, antes de criar raízes.

Terceiro; aprender a contentar-se com pouco e a ter somente o necessário, todo o dinheiro restante era guardado em uma poupança.

Quarto; precisaria de um emprego simples, nada muito difícil, mas nada que recebesse pouco. E teria que realizar todas as ordens ordenadas de maneira competente, não de forma a ser promovido, mas de forma a ser mantido. Dinheiro era necessário.

Quinto e muito importante; todo e qualquer envolvimento amoroso deveria ser retaliado.

Esse era o mais complicado para Henrique, que inventava desculpas e encontrava defeitos para não ter que enfrentar a verdade de seu egoísmo, porém era necessário em seu planejamento e com o tempo, com o tempo ele deixou de sentir.

Com isso Henrique pode ter sua casa para morar, sua televisão para entreter, seu carro para locomover, sua faxineira para limpar, sua cozinheira para cozinhar, uma boa aposentadoria e popança para manter, um cachorro para acompanhar, uma boa conexão de internet para entreter, um bom computador para entreter, umas prostitutas para entreter, alguns litros de álcool para esquecer, outros tantos cigarros para relaxar, alguns analgésicos para a dor e outros tantos calmantes para dormir.

Henrique é um bom homem. Têm seus 77 anos. É feliz. Nunca fez nada demais, muito menos de menos. Apenas abraçou sua Zona de Conforto.


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